O estranho – por Rosana Serena
Ninguém saberia como classificá-lo! Descrever-lhe era fácil, invejoso e maldoso estava sempre arquitetando represálias contra todos aqueles que ele considerava impedirem seu acesso a plenitude total.
Tumultuado e tumultuador está sempre fazendo barulho, quebrando regras e perturbando as pessoas com suas reivindicações exigentes e queixosas.
Considera-se delirantemente meritório de todas as honrarias e reverências humanas e estava sempre enfurecido, porque não lhe prestavam tais homenagens.
Eram comuns seus ataques de fúria e agressividade, quando então se voltava contra aquele que no momento era o nomeado impedidor da vez.
Não se via como era dependente, explorador e preguiçoso até a conseqüência de não assumir qualquer responsabilidade mínima com os seus ou com o que era seu.
Ora se apresentava apenas como mau caráter que era e de quem poderia se esperar quaisquer cretinices, mas por inúmeras vezes era o bandido ameaçador contra vida dos que lhe incomodavam.
Não raro apresentava-se como o menino sofredor que a sorte abandonara e seu choro convulsivo a alguns ainda enganava.
O que era sempre, é que era dissimuladamente uma bomba, sempre prestes a explodir. O que era, é que era sempre uma complicação na vida de qualquer um com o quem ele se relacionasse.
Não pagava imposto, por seus desmandos, porque nada na vida literalmente pagava. Nem se quer as conseqüências de suas maledicências, prodigiosamente construídas no dia a dia de suas intermináveis conversinhas com e dos outros.
À porta fechada era difícil de lhe manter para fora, pois a família poderosa lhe servia como chave de abertura, abertura para seus desmandos!
Tem irmãos que se encaminharam na vida por si próprios, mas ele acredita que foi o pai que lhes deu a condição e o exceptou dessa dádiva.
Ciumento e invejoso acusava o pai de ser aquele que ele julgava que tudo podia e tudo tinha, mas que se recusava em lhe dar o acesso a um desfrutamento total da vida.
Via o pai como mais forte e poderoso do que ele realmente houvera sido algum dia na vida, e mesmo hoje velho e alquebrado este pai não faz sombra a esse pai imaginário.
A hostilidade é laboriosamente escondida e a atenção implícita é constante e o velho pai de alguma forma sabe que este que tanto lhe demonstra seu afeto aquiescente e submisso não é merecedor de sua confiança afetiva.
Em Totem e Tabu, Freud descreve o mito do pai da horda primitiva. É o mito fundador da humanidade e uma narrativa, correlata a construção do sujeito. Segundo esse mito na origem da humanidade, havia a horda primitiva, cujo macho dominante, reservava para si o gozo sobre todas as mulheres, e elas ficavam assim proibidas para todos os outros machos do bando. Sobre eles, o tirano exercia um poder absoluto de vida e morte. E, portanto fica muito claro, que ele representaria para os filhos, o mito do gozo sem obstáculos e por si só podemos observar o caráter dessa impossibilidade. O chefe da horda, tirânico e cruel é aquele que impediria aos filhos o seu acesso a possibilidade de gozar no sentido lacaniano do termo, o de usufruto, os filhos se sentiam impedidos de usufruir, cansados de tantas privações decidiram associar-se entre si para assassiná-lo sem a ajuda ou participações das mulheres da tribo, aquelas das quais supostamente somente o tirano desfruta.
Morto o pai, longe de precipitarem-se para o desfrutamento, cujo acesso supostamente ele impedia, os filhos proíbem para si mesmos as mulheres da horda. Com esse ato os filhos renunciam ao desejo incestuoso que está na base da lei primordial que é exatamente a interdição ao incesto que é a premissa universal de toda a civilização humana. Com esse ato se funda e se instaura o desejo que é correlato à lei, que se herege sobre a lei do prazer e proibição ao gozo, substituindo a lei do tirano. “Não só o assassinato do pai não abre o caminho para o gozo que a presença do pai supostamente proibia, mas ele reforça a sua interdição.[1]”. Ou seja, o tirano com sua morte leva junto à possibilidade de gozo, que fica para os filhos perdida para sempre.
Os despojos paternos consumidos em uma refeição totêmica garantem aos filhos a identificação ao pai, com a intenção de apropriação da força paterna. Os filhos tanto amavam quanto odiavam esse pai, e o amor faz querer incorporá-lo. E segundo Freud é isto que dá origem as organizações sociais às restrições morais e as religiões.
“Os irmãos pouco a pouco tiveram saudade do pai primitivo, cuja onipotência eles não podiam mais sonhar arrogar-se. O ressentimento diminuindo com o tempo, o pai foi elevado à posição de deus, o que realizava o desejo de expiação mais eficazmente do que o pacto concluído com o totem.” [2] “O ato dos filhos eleva o tirano sacrificado à posição de pai originário, como pai morto, isto é o pai simbólico na origem da Lei.” [3]
Correlato ao mito do pai da Horda Primitiva temos o Mito do Édipo, e por meio deste podemos explicar o determinante da posição do sujeito, identificando três momentos organizadores:
1- Em um primeiro momento a criança está assujeitada à mãe, como objeto de seu desejo. Está esta criança, nesta fase, condenada a ser o objeto a completar a falta na mãe, sua condição de ser, portanto é ser o falo materno, e situa a criança na dialética do ser. Este momento é para a criança, o momento de um dano imaginário efetivado pela própria mãe como O (grande Outro).
2- O segundo momento do Édipo passa pela questão dialética de ser ou não ser o falo, e será a função paterna que virá intervir na relação funcional com a mãe sob forma de privação. O pai como portador do falo é o privador em duplo sentido, ele interdita a criança de se fazer objeto do desejo da mãe e priva a mãe de tomar a criança como seu objeto fálico. Este momento é marcado para a criança, pela privação efetivada pelo pai imaginário.
3- O terceiro momento é exatamente quando o pai se apresenta como objeto do desejo da mãe, e é identificado pela criança como aquele que é imaginariamente o falo, é a lei do pai cumprido sua função. A criança tendo se dado conta que não é o falo e que também não o possui, identifica o pai como aquele que tem o falo, operação psíquica pela qual o pai ascenderá à posição de pai simbólico, é a lei do pai cumprindo sua função. O menino a partir daí renunciará a ser o falo e identificando ao pai se inscrevera na dialética de ter o falo. A menina identifica-se a mãe, como a que não tem, mas que saberá onde encontrá-lo. Este momento é o momento da castração agenciada pelo pai real.
A criança para ter acesso à legitimidade do seu desejo deve refazer simbolicamente o mesmo ato que os filhos realizam no mito da horda primitiva. No centro desse drama edipiano está o pai. Lacan designa como Nome do Pai as funções contíguas do pai imaginário, do pai real e do pai simbólico, na organização da criança:
1- “O pai imaginário é aquele com quem lidamos o tempo todo”. E a ele que se refere mais comumente toda a dialética da agressividade, e da identificação, a da idealização pela qual o sujeito tem o acesso à identificação com pai.
… “E o pai assustador e que não tem de forma alguma obrigatoriamente a relação com o pai real”.[4]
2- “O pai real é uma coisa completamente diferente do qual a criança só teve uma apreensão muito difícil devido às imposições de fantasias e a necessidade da relação simbólica”. Pois há uma enorme dificuldade de aprender aquilo que há de mais real em torno de nós, isto é, os seres humanos tais como são.
…Personagem do pai que em condições comuns pode ser como razão considerado como um elemento constante daquilo que se chama em nossos dias o meio ambiente da criança.
…E ao pai real que se defere efetivamente, a função de destaque no Complexo de Castração “[5].
3- “O pai simbólico é uma necessidade da construção simbólica que só é alcançado por uma construção mítica”.[6]
A castração, concretizada no terceiro momento edipiano é um conceito fundamental da teoria psicanalítica que foi introduzido por Freud, e é correlato a Lei Primordial e ao Mito da Horda Primitiva, refere-se à perda de um objeto imaginário, é uma operação efetivada por um agente, o pai real, que incide sobre um objeto imaginário, o falo. É uma operação simbólica em que a lei do pai intervém na relação dual com a criança e sua mãe, por onde instala no sujeito a dialética do desejo. É uma operação estruturante que anula a universalidade imaginária do falo e, portanto corresponde à assunção da falta como constitutiva do sujeito.
A busca de um gozo absoluto e impossível o faz sentir-se em crédito sempre impagável, mas ele acredita que com a morte do pai ele terá acesso ao poder. Poder do que? Poder de gozar.
A fantasia do pai todo poderoso que mesmo não sendo, ainda é aquele que não lhe dá o acesso ao gozo…
O gozo absoluto impossível, almejado…
O poder total inexistente invocado…
O dinheiro como equivalente fálico inatingível…
…Fazem um delírio!…
E fazem de nosso herói um delirante que não conseguiu por um agente chamado pai, aceder a bom termo à operação simbólica da castração.
Alguém que estranho a castração, estranha na vida quando ela lhe aparece sob forma de um limite ao seu gozo.
[1] LACAN, J., “A ética da Psicanálise – Seminário VII“,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1991, pag. 207
[2] Freud, S., “Totem e Tabu”, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud – vol.XII –1990 pag. 289
[3] VALAS, P., As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. pag. 41
[4] LACAN, J., “As relações de objeto “- livro IV –Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 225
[5] LACAN, J., “As relações de objeto “- livro IV –Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 226
[6] LACAN, J., “As relações de objeto “- livro IV –Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 226
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