Um fora da lei – por Rosana Serena

Bebezinho ele encantara a todos com sua beleza e vigor. Sua mãe contava que fora muito exigente. Sempre esfaimado, berrava por alimento e era tão erguido e forte o seu berro, que era preferível atendê-lo de imediato. Em brados, irrequieto e manhoso estava sempre a exigir atenção e era preciso lhe pegar no colo antes que ele perdesse o fôlego. Seu pai não fazia caso se a mãe com seu lindo bebê estivesse sempre às voltas, posto que estava ele mesmo voltado para outras coisas. Ademais seu sonho fora de ter um filho varão e como menino pobre havia sido, tinha jurado ao seu sucessor não faltar nada. E assim sendo nessa fase de vida não lhe privaram de nada! Seus primeiros passos foram uma condenação ruinosa para móveis e objetos. E a si mesmo, punha em...

Melancolia – por Rosana Serena

Para onde ela olhava fitando o infinito? Onde estava assim tão perdida? Que mundo distante era esse onde não a podíamos alcançar? Desde sempre me intrigou como mistério insolvido, aquele seu olhar. Era como que afogado em profundos mares de incompreensíveis mágoas. Era desviado e distante da cena presente que se desenrolava diante dela. Em sua reclusão silenciosa por trás de seus olhos, onde estaria ela? E lá, distante onde estivesse o que estaria vendo dela? E vendo o que via o que estaria sentindo ela? Era toda dor e agonia de uma alma ressentida. Mas de que? Dava de ombros desgostamente quando lhe insistiam saber a razão, como se ultraje fosse não lhe reconhecerem o valor de sua dor, e respondia silenciosamente com maior mágoa em seu olhar. Vivia...

Nos desfiladeiros da angústia – por Rosana Serena

E de repente acordei sobressaltada entre brumas: Onde eu estava? E me tomou como de assalto. O céu abruptamente cinza, se refechou sobre mim. Estava às cegas, envolta por uma cerração fechada que me impossibilitava ver coisa alguma. Sabia que estava num vale sombrio e me agarrava à esperança vã, contida na oração, que me assegurava que mesmo que eu andasse pelo vale da morte, não deveria temer perigo nenhum, pois não estaria sozinha. Mas eu, vislumbrava no meio das sombras, apenas as paredes do grande desfiladeiro em cujo vale eu me encontrava: Que lugar era esse? Ouvia ao longe, as vozes queridas de quem amava, mas as palavras débeis não se faziam formar. Via-lhes difusa e longinquamente a imagem amada, mas não lhes podia alcançar. Entrevia...

A princesa que não vestiu o sapatinho de cristal – por Rosana Serena

– Irascível, diríamos dela! Insuportável em sua grandiloqüência que se aproxima de um solilóquio. Ela de fato fala de si e para si o tempo todo. Sua fala é sempre uma acusação explicita ou implicitamente. Condenatória em sua cobrança de atos de solidariedade que não sabe ter. Solene em suas reivindicações amorosas de um amor que não sabe dar. Beligerante na exigência de um reconhecimento que não sabe trocar. Esgota-se nessas exigências!Vive cansada! Imaginariamente se vê em um palco onde é a atriz principal, mas cuja platéia inadvertidamente não lhe aclama a interpretação. Encena como que diante de um espelho no qual mantém fixo o olhar. Encenação desgastante a espera de um reflexo que não vem, pois o que procura é ver refletida...

Sou a agulha que passa e não a linha que fica – por Rosana Serena

Sou agulha que passa e não a linha que fica”, que implicações tem essa frase que inúmeras vezes ouvi como uma lamúria? Ele era bonito, bem apessoado, incrivelmente bem composto em seus trajes irrepreensivelmente bem arrumados. Estava sempre à vanguarda dos acontecimentos intelectuais, pelo menos em pensamentos. Pensava muito! Sempre as voltas com grandes projetos. Vivia numa atividade mental incessante, como é toda dedicação ao trabalho dos workaholics. Mesmo seus momentos de lazer tendiam a obedecer à lógica da produtividade na medida em que os planejava metodicamente. Estava sempre em movimento frenético que o fazia estar em toda parte, mas era visível que não sentia pertencer a nenhuma, na medida em que se preparava sempre para o próprio...

O que a gente permite! – por Rosana Serena

Ouço muito, estrondosamente rompendo o discurso das queixas diversas de problemas no relacionamento; alguém da pequena platéia de ouvintes interrompendo o queixoso com a seguinte interpelação: _ O outro só faz com a gente o que a gente permite! E eu, nem sempre silenciosamente, penso admoestando, de que serve essa popular e selvagem interpretação, dita assim tão abruptamente. Esse outro que sofre, sofrerá ainda mais ao ouvir externalizada a acusação que já se faz: _ Você permite! É sempre em um jogo amoroso que ele se vê assim, como que capturando nas redes subjetivas desse outro a quem ele ama fervorosamente. Por que se permite ser magoado? Por que está tão assim submetido aos desejos e vontades do outro? Porque acima de todos os porquês, sabe...