Rosebud (Cidadão Kane) – por Rosana Serena

Estamos em 1941, em um quarto ricamente mobiliado, em seu leito o personagem mansamente morre, deixando cair delicadamente das mãos um pequeno globo de neve com seus flocos agitando-se na queda, enquanto o pequeno objeto rola pelo chão espatifando-se, ele pronuncia em um sussurro sua última palavra: “rosebud”.

As próximas cenas mostram a cobertura jornalística do evento, com cortejo fúnebre do cidadão Kane saindo de Xanadu. A mais rica mansão já construída, o locutor reporta, enquanto descreve Xanadu como um monumento do prazer, construída por Kubla Kan[1] assim também chamado Kane, o magnata. A maior mansão privada já construída, ele afirma, enquanto descreve-a como uma montanha particular construída no deserto da Costa do Golfo, na Flórida, com 20 toneladas de mármore, 100 mil árvores plantadas. Ele continua, em seu tom jornalístico, é um monumento faraônico, o mais caro que um homem já construiu. Seu conteúdo de peças e obras de arte poderia preencher dez museus e o desafio seria o de catalogar todas as peças. Segundo ele, na mansão também se encontra o maior zoológico particular do mundo, contendo em sua coleção dois animais de cada espécie.

Entusiasticamente o locutor descreve Charles Foster Kane como o homem de origem humilde que construiu um império, que odiado e amado, criou uma força descomunal política e financeira, mas sem jamais ter conseguido eleger a si próprio. Reporta ainda, que com a depressão de 1929, seus negócios se deterioram e ele se tornou isolado e decadente na inacabada Xanadu, desde onde ainda dirigiu seu falido império.

Recorto a próxima cena, na qual jornalistas reunidos decidem, escrevendo sobre o mito, dizer dele, o que não foi dito. Buscam o homem e o mito por trás de sua última palavra pronunciada, “rosebud”. Tem início a uma frenética corrida investigatória, por toda a história de vida de Kane para buscar decifrar o sentido da palavra. Tal tarefa para que o grupo de jornalistas, tem o sentido de uma peregrinação em busca de desvendar o homem por trás de uma palavra. A busca do sentido de uma vida em uma última palavra!

Thompson, o jornalista, inicia sua jornada com uma pesquisa na biblioteca particular de Walter Park Thatcher, antigo curador de Kane, em um manuscrito por ele redigido e de publicação não autorizada e desta pesquisa resgatou o início de sua história:

O pequeno Charles, mora com seus humildes pais no Colorado, em uma pensão dirigida por sua severa mãe. Esta recebe em 1868 de Fred Graves, um inquilino inadimplente, uma escritura de uma mina abandonada aparentemente sem valor, que posteriormente se revela a 3ª maior mina de ouro do país. A mãe escolhe o Sr. Thatcher e seu banco para ser curador e administrador da mina e da fortuna até que o menino faça 25 anos, quando entrará em posse de todos os bens. O banco em contrapartida exige que decida sobre a formação e a vida do menino, cuja educação ficará totalmente a seu cargo. A mãe decidida e impiedosa assina os papéis e entrega o menino aos tutores para viver e morar em New York.

Enquanto tal cena se passa internamente na pequena sala da casa, ao fundo como um quadro fixo em uma parede, uma janela aberta nos mostra incessantemente um cenário de neve que cai intensamente e um menino que ruidosa e alegremente brinca com seu trenozinho. Interrompido no júbilo de sua atividade prazerosa o menino é informado que deverá seguir viagem com Sr. Thatcher, a criança Kane, reage agressivamente, mas é firmemente conduzido à seu destino. A câmera mostra em primeiro plano o trenozinho solitariamente, jogado à neve que vai lhe cobrindo impiedosamente, como que a representar o desconsolo e tristeza do garoto, cujo destino incompassível caiu sobre si.

Aos 25 anos Kane de posse de toda sua herança, não se interessa pelos bens herdados, com exceção de um pequeno jornal que ele passa a dirigir apaixonadamente e a usar como meio de defender suas crenças. O pequeno jornal “Inquirer” sob sua direção se torna tão importante quanto o maior jornal da época. É um jornal diário, com sinceridade de notícias e Kane através dele torna-se um magnata da comunicação.

O próximo encontro do jornalista em sua trajetória investigativa é com Bernstein admirador e colaborador que relata a trajetória de Kane como grande homem da comunicação e seus tempos do “Inquirer”. À pergunta insistentemente sobre o significado da palavra, “rosebud”, Bersneitn sugere:

_Pode ser algo que ele perdeu, porque ele perdeu quase tudo que teve!

A próxima inquirição em busca do sentido de uma vida, por uma última palavra por um homem proferida é feita em entrevista com o velho amigo de Kane. Neste encontro com Leland, mais uma parte da vida de Kane fica a descoberto. O casamento infeliz, de conveniência com uma mulher de família tradicional, que pretendia assegurar sua entrada na política. O envolvimento com uma jovem simples e com pretensões de ser uma grande cantora. A denúncia do romance por seu oponente e a decisão e manutenção de seu relacionamento com a moça que àquela época moralmente inaceitável, acaba sem ter iniciado a carreira de Kane como político. Leland afirma nada saber sobre a palavra, mas sobre Kane ele se pronuncia:

_Tudo o que ele queria era amor! Fez tudo por amor, que ele sempre perdeu!

_Queria tanto convencer as pessoas que as amava para ser amado. Amor, nos seus termos e de acordo com suas regras!

A próxima parada do jornalista para a tentativa de desvendamento da significação de “rosebud” é o encontro com Susan, a pretensa cantora de ópera e sua segunda esposa. Ela conta como ele insistiu freneticamente em fazer dela uma cantora e que para ela construiu um teatro próprio. Sua estréia, no entanto foi deprimente, ela foi ridicularizada e rejeitada como cantora, mas ele exigiu que ela continuasse, até se superar e se tornar uma grande cantora. De personalidade ingênua e pueril ela tentou até a exaustão final, quando ambos desistem do projeto delirante. Infelizes e isolados um do outro eles vivem em Xanadu, onde tudo era megalomaniacamente executado desde festas a passeios, até que ela decididamente o abandona. Diante de sua promessa desesperada de permitir que ela fizesse tudo o que quisesse desde que não o abandonasse, triunfante em sua decisão, ela diz no que pretende ser dele um arremedo enquanto bate a porta atrás de si:

_Tudo que é meu eu darei, desde que me ame!

Na última etapa de sua corrida investigatória o jornalista entrevista o antigo mordomo de Xanadu, a mansão.

_ Sim, ele afirma, já o tinha ouvido pronunciar a palavra “rosebud” assim como havia visto anteriormente em sua mão o pequeno globo de neve, quando aleatoriamente em meio a objetos atirados à parede diante da fúria pela partida da esposa, este fica entre suas mãos enquanto ele pronuncia a palavra.

É em Xanadu entre milhares e milhares de peças de antiguidade caríssimas, e infindáveis lotes de sucata, que o grupo de jornalistas finalmente desiste da tarefa de buscar intelectualmente pela resposta, diante da visão impactante do colecionista que havia sido Kane. Compreendem naquele instante que a palavra seria dentre tantas, apenas uma peça, como aquelas tantas milhares de peças espalhadas na mansão e na vida de Kane. E que de qualquer forma, como única peça não poderia dizer muito.

Em uma longa seqüência, a câmera passa por sobre pilhas infindáveis de objetos mostrando dezenas de funcionários em grande atividade separando o valioso do imprestável, até o ponto em que um deles distraidamente pega do lote de objetos descartáveis um pequeno trenó, que apanhado da pilha distraidamente é jogado à fornalha que queima o lixo. A câmera se aproxima lentamente da boca da fornalha e mostra o pequeno trenó envolvido em chamas e em primeiro plano a palavra, “rosebud”, se destaca escrita nele, enquanto o fogo consome tudo.

A fumaça negra sai pela chaminé dando sua prova de uma vida que se acaba naquele momento. A cena final, mostra Xanadu sombria e solitária como testemunho final do fim de uma vida cujo o sentido o homem levou consigo.

Considerado um dos mais importantes filmes da história do cinema, cidadão Kane interpretado e dirigido por Orson Wells, traz segundo críticos uma revolução estética e conceitual para arte cinematográfica. Além de usar todos os recursos técnicos e estéticos possíveis à época, o filme é composto revolucionariamente por vários gêneros, desde melodrama até documentário, e retrata o espírito crítico de seu tempo com seus questionamentos morais à sociedade capitalista da época, tão bem representados nas palavras de Kane.

Segundo Robertson Mayrink[2], mestre em cinema, o principal aspecto técnico, é o uso da profundidade de campo, redimensionando o aspecto cênico fazendo com que o espectador tenha uma visão completa do ambiente. Para ele, a principal contribuição do filme é em relação à linguagem visual do cinema: a profundidade de um campo, ângulos baixos, uso de flash back, de lentes especiais que distorcem ambientes de acordo com o perfil psicológico de cada personagem. O segundo aspecto que destaca é o narrativo, não-linear, o filme começa do fim, volta à infância de Kane, vai à velhice, volta juventude e assim por diante. Traz também neste quesito uma grande inovação, a história é contada através do ponto de vista de cada personagem entrevistado.

Podemos observar no filme, uma forte influência do expressionismo alemão como escola cinematográfica na distorção de ambiente e caracterização psicológica dos personagens. O filme revela a genialidade de Orson Wells que rompe com a linguagem cinematográfica tanto em termos técnicos quanto narrativo. É um filme que exige a participação do espectador. Como toda grande obra de arte, permanece atual, sempre despertando a emoção e razão no sentido da procura e descoberta de toda sua grandiosidade.

Ao falar de signos, nós temos que nos referir a Ferdinand Saussure e a semiologia como “a ciência que elucida a vida dos signos no seio da vida social” [3], definição dele próprio. Para ele um conceito consiste na representação mental de um determinado objeto ou da realidade social, a que ele pertence e é situada, e esta representação, depende da concepção sócio cultural que nos permeia desde o nascimento.

Lacan, no entanto diferencia signo de significantes, enquanto um signo representa algo para alguém, um significante representa um sujeito para outro significante. Conceito só possível de entender se considerarmos a máxima lacaniana de que um inconsciente está estruturado como uma linguagem.

Os significantes são prévios ao sujeito são recebidos do Outro (outro grande) e o fundam, construindo seu inconsciente. Haverá então no inconsciente, significantes, fazendo uma cadeia, onde se opõe um significante a outro em contínuo deslizamento metonímico. Na fala de um sujeito, a significação tem que ser procurada metaforicamente no ponto de basta, onde se rompe a lógica do discurso consciente, quando algo aí se presentifica na fala e a cadeia se interrompe.

“O significado não é aquele que se ouve. O que se ouve é o significante” [4] O que quer dizer que o significante está no discurso de um sujeito e será através dele que poderá se procurar um significado que só surgirá na própria cadeia de significantes. Na relação de um com o outro, em trabalho sintático que não trará um significado último de uma interpretação última e definitiva, mesmo porque e principalmente, não há um significante último.

Ao procurar febrilmente o homem por detrás da palavra última que fantasiosamente elucidaria o mito e o homem, refechando todo o sentido de uma vida, é o próprio jornalista Thompson que nos dá a resposta, que faz de “rosebud” a palavra apenas, o que ela é, ela é um significante!

Seu discurso final é de uma desistência diante da impossibilidade de uma fechada e acabada apreensão da verdade do sujeito.

_ “Rosebud”!… Pode ser o que o que ele não conseguiu! Ou o que perdeu! Mas não explicaria tudo! Nenhuma palavra pode explicar a vida de um homem! É apenas uma peça de um quebra cabeça!

Ou deveríamos corrigir, é apenas um significante que remeterá a outro significante em oposição, em uma cadeia. Significante que não funciona isoladamente por si só e sem a função de um sujeito que fala, e cuja significação há que ser buscada na materialidade mesma do significante e não no que ele significa para um outro. De qualquer forma não haveria nunca um último, que pudesse dizer tudo.

Busca de refechamento de sentido fadada ao fracasso quando se trata do sujeito do inconsciente.

 

 

 


[1] Kubla Khan é um poema escrito por Samuel Taylor Coleridge, poeta inglês, em homenagem ao grande líder mongol Kublai Khan e seu palácio de verão, Xanadu. O poema descreve eloqüentemente Xanadu e o rio sagrado Alph, às vezes de forma subjetiva, outras, de forma direta, a através desse relato fala de seus próprios sentimentos. Esse poema é uma prova do fascínio que o Ocidente tinha pelo Oriente, ou mais além, do fascínio que o homem tem do desconhecido. http://shadowstosoul.blogspot.com.br/2012/11/traducao-kubla-khan-de-samuel-taylor.html?m=1

 

[3] www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista- Psicanálise & Barroco em revista v.7, n.1 31-44, jul 2009

 

[4]www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista- Psicanálise & Barroco em revista v.7, n.1 31-44, jul 2009

1 Comentários

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    abr 8, 2016

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